Tengu: O guerreiro gigante alado das montanhs do Japão

 

Parte do vasto folclore japonês desde antigos tempos, os gigantes alados conhecidos como Tengu (天狗), caracterizam-se por possuir fortes traços humanos acoplados aos da ave de rapina. As poderosas criaturas são reconhecidas como orgulhosos guerreiros youkai, muito respeitados no mundo das artes marciais, e seus poderes envolvem o controle sobre forças da natureza, ilusão, invisibilidade, mudança de forma, alta habilidade de manejar espadas e arcos, capacidade de voar, penetrar no sonho dos mortais e predizer o futuro. Outra habilidade atribuída ao tengu inclui a capacidade de possuir espiritualmente seres humanos, semelhante às raposas mágicas de nove caudas (Kitsune).

Esses singulares guerreiros alados são considerados deuses (kami) das montanhas e florestas, sendo classificados como: “Daitengu” (Grande Tengu) ou “Konoha Tengu” (木の葉天狗, Tengu das Florestas), com feições humanas; mas dotados de asas e longos narizes, e “Ko-tengu” (Pequeno Tengu) ou “Karasu Tengu” (烏天狗, Tengu Corvos), que possuem corpo humano e cabeça de corvo. A altivez era a característica mais retratada dos Tengu nos antigos registros, essas soberbas criaturas gostavam de pregar peças em humanos e de tentar samurais e monges budistas pretensiosos e arrogantes. Devido a isso, ainda hoje no Japão, muitas vezes a expressão Tengu ni naru, literalmente “Ele está se transformando em um tengu”, ainda é usada como metáfora para designar uma pessoa extremamente vaidosa.

Tengu: Os Lendários Homens-pássaros

Muito populares no território nipônico, a imagem do “Tengu” (天狗, Cão celestial) está presente em contos desde o velho Japão. Detentores de muitos poderes, tengu são tidos como Kami das Montanhas (deuses). No entanto, ao mesmo tempo em que eram adorados como uma divindade das montanhas em várias regiões do país, também eram temidos por muitos como um Yōkai (Ser sobrenatural) capaz de trazer calamidades aos humanos. De acordo com o mito, tengu geralmente, vivem vidas solitárias, mas, ocasionalmente, trabalham juntos ou com outros youkai para realizar seus objetivos. Comumente habitam as altas montanhas, vivendo em grutas em penhascos ou florestas, em áreas cercadas por densa natureza. Alimentam-se de animais selvagens, gado e outros animais de rebanhos, carniça e, por vezes, até carne humana.

As milenares criaturas se caracterizam por sua gigantesca estatura alada, rostos vermelhos, longos narizes e vestes como a de um yamabushi, um monge eremita ascético. Por vezes, carregam armas finas ou outros itens (geralmente roubados de casas humanos ou templos).

Origens do Mito

A origem precisa dos homens-pássaros é desconhecida, tendo se estabelecido através de um processo de importação de características de mitos advindos de diferentes culturas da Asia. O termo “tengu” remonta a um demônio feroz do folclore chinês chamado “Tiāngoǔ” (のの). A mítica criatura chinesa, apesar de uma variedade se descrições, na maioria das vezes é dito ser um antropofágico monstro canino que se assemelha a uma estrela cadente ou cometa que faz barulhos como trovões, levando guerra para onde quer que caísse.

A primeira menção registrada de tengu na Terra do Sol Nascente foi descrita no 23º capítulo do Nihon Shoki (Crônicas do Antigo Japão). Neste relato, o surgimento de uma grande estrela cadente é identificado por um monge budista como um “cão celestial”, e assim como o tiāngoǔ da China, a visão deste corpo celeste precedia uma revolta militar. Os caracteres usados na descrição do texto sugerem uma síntese entre o demônio chinês e o espírito-raposa japonês (kitsune).

Nos registros, não fica claro o processo de mudança na imagem de cão-celeste para homem-pássaro, de acordo com alguns estudiosos, a imagem com asas e bico de pássaro vista até os dias atuais, deriva da divindade águia hindu, Garuda. De fato, especula-se que o tengu possa ser descendente de um antigo demônio-pássaro xintoísta que foi sincretizado, tanto com a garuda quanto com a tiāngoǔ, quando o budismo foi introduzido no Japão.

No entanto, embora o termo usado para descrever essas criaturas tenha sido derivado da designação chinesa, sua caracterização é distintamente japonesa. No país, apesar dos primeiros relatos os descreverem apenas com a forma de aves de rapina, com o passar do tempo foram retratados com uma mescla de características humanas e aviárias. Em representações posteriores, essas características ganharam contornos antropomorfizados em narizes excepcionalmente longos, tornando-se o aspecto mais definitivo do tengu visto hoje.

Da perspectiva budista, os tengus eram vistos como manifestações de “ma” (sânscrito: mara ” demônio que atacou Gautama Buda sob a árvore bodhi, na tentativa de impedir que Buda alcançasse a iluminação”) – o budismo utiliza o conceito de “Mara” para representar e personificar qualidades negativas encontradas no ego humano. Ou seja, os tengus eram vistos como criaturas de desordem e ilusão cujo único propósito era confundir aqueles na busca pela iluminação.

Um Tengu nasce quando uma pessoa arrogante morre, mas, não é mau o suficiente para ir para o inferno, porém, é carregado de orgulho e ira extrema para entrar no reino do céu.

Desta forma, os tengu concebidos sob a ótica da crença budista, nascem quando uma pessoa arrogante morre, mas não é mau o suficiente para ir para o inferno, entretanto, é carregado de vaidade extrema, orgulho e ira, ou herético para entrar no reino do céu. O tengu é tido como uma personificação dos vícios humanos excessivos, ampliados com poderes de uma forma nova e, demoníaca.

Sua aparência distinta levou a inúmeros contos passados de geração a geração no decorrer dos séculos. Nessa época, tudo que era misterioso, ou inexplicável, era atribuído aos tengu. Entretanto, dentro dessa miríade folclórica, durante o Período Edo (1603 – 1868), sua imagem viciosa e soturna, retratada em histórias anteriores, foi gradualmente sendo substituídas por divertidos contos populares.

A partir de então, muitos contos os retrataram como criaturas bem-humoradas, mas que são facilmente enganadas. Apesar de reconhecidos por pregar peças nos homens, existem muitos contos sobre tengu sendo enganados em negociações de itens mágicos poderosos, ou trocar informações valiosas em troca de bugigangas inúteis. Muitas vezes, isso ocorre porque o tolo ko-tengu, espelhando-se em seus sábios primos ‘Dai-tengu’, superestimam sua própria inteligência ao tentar enganar um ser humano, acabando por eles mesmos sendo ludibriados.


Tengu: Categorias do Yōkai

Na arte japonesa, o yokai é retratado em uma ampla gama de formas; o nariz extremamente longo do tengu parece ter sido concebido em algum momento do século XIV, provavelmente como uma humanização da imagem original de pássaro. Assim sendo, as representações atuais são referidas por termos diferentes com “karasu tengu” (のの) usado para descrever o tengu aviário e “konoha tengu” (のの葉) a forma humanoide. As criaturas se dividem em duas subcategorias principais: Daitengu (Grande Tengu) e Ko-tengu (Pequeno Tengu).

Ko-tengu

Com menores características semelhantes às humanas, os Ko-tengu (Pequeno Tengu) assemelham-se mais a grandes aves de rapina, sendo também chamados como “Karasu Tengu” (烏天狗, Tengu-corvo). Trajando vestes simples e portando armas (muitas vezes roubadas), costumam viver sozinhos, mas, assim como outros da espécie, ocasionalmente, trabalham juntos na realização de algum propósito.

Eles também são tidos como habilidosos colecionadores, gostam de negociar, desde quinquilharias a itens mágicos valiosos. Quando irritados, costumam apresentar acessos de raiva e atitudes destrutivas, extravasando sua raiva em qualquer coisa ou, ser, mais próximo. Nestas horas, comportam-se mais como aves selvagens do que como indivíduo. Ko-tengu são vistos como servos, ou tenentes dos poderosos, Dai-tengu.

Ko-tengu assemelham-se mais a grandes e cruéis aves de rapina.

De acordo com a crença, o Ko-tengu têm pouco ou, nenhum, respeito por seres humanos, sendo retratados em muitos contos como seres perversos, capazes de cometer estupro, tortura e assassinato apenas por diversão. Reza o mito que os ko-tengu sequestravam pessoas (um fenômeno youkai chamado “kamikakushi”) só para deixá-los cair de grandes alturas nas profundezas da floresta. Em outras versões, amarravam as crianças nas copas das árvores para que todos pudessem ouvir seus gritos, mas ninguém fosse capaz de alcançá-las para ajudar. Ou, ainda, envolve o desaparecimento de uma criança, geralmente, meninos, seguido de seu retorno em um local novo e estranho e em um estado aparentemente alterado.

Também existem relatos de vítimas que foram forçadas a comer fezes até enlouquecer. Outras vezes, apedrejavam por pura distração as casas dos aldeões, ou provocavam cegueira ao tocar as pessoas com suas asas.

Frequentemente as criaturas, se deleitam, especialmente, em roubar templos e atormentar monges e monjas, tentando seduzi-los.

Existem muitas lendas de tengus que, abusando de sua capacidade de mudança de forma, constantemente apareciam como Budha para enganar os monges. Contam que muitos eram desviados de seus caminhos de iluminação, ou atraídos pelos poderes da criatura, podendo vir, eles próprios, a tornarem-se um tengu.

Em um velho conto, um monge em busca de reconhecimento, usou seus conhecimentos adquiridos através de um tengu para curar um Imperador adoecido. Mas, logo caiu em profundo arrependimento, pois após adquirir tais poderes, não poderia seguir no caminho da luz de Buda. Assim como, no Conto de Hōgen, o Imperador Sutoku, que foi forçado por seu pai a abandonar o trono, após a Rebelião de Hōgen, na qual tentou recuperar seu poder, foi derrotado e exilado para a Província de Sanuki em Shikoku. De acordo com a lenda, Sutoku morreu em tormento, tendo jurado assombrar a nação como um grande demônio, e assim se tornou um temível tengu.

Dai-tengu

Sōjōbō and Yoshitsune

Os Dai-tengu (Grande Tengu), também chamados de “Cão-divino” ou “Konoha Tengu” (木の葉天狗, Tengu das Florestas) são tidos como muito maiores e imponentes do que os Kotengu. Os Dai-tengu, geralmente, aparecem em uma forma mais semelhante à humana. Eles foram frequentemente retratados como homens simples, trajados com as vestes de um “yamabushi” (monge eremita ascético, parte da religião sincrítica ‘Shugendō’, que inclui elementos budistas tântricos, xintoístas e taoistas japoneses). Porém, apresentam um rosto vermelho, com um nariz incrivelmente longo (reza a lenda que, quanto maior o nariz, mais poderoso é o tengu) e grandes asas emplumadas, brotando de suas costas.

Reza a lenda que, quanto maior o nariz, mais poderoso é o tengu.

Só raramente estas criaturas aparecem na forma aviária mais primitiva, como a do menor tengu (ko-tengu). Com uma imagem mais benevolente, Dai-tengu costumam viver solitários como protetores da natureza em montanhas remotas, distantes da humanidade. Segundo as lendas, eles preferem gastar seu tempo em profunda meditação para seu aperfeiçoamento. São comumente retratados como extremamente orgulhosos, sendo detentores de sabedoria e poder muito maior que seus primos menores, os ko-tengu.

No entanto, Dai-tengu também podem ser tão selvagens e imprevisíveis quanto e, nestes casos, seus poderes os tornam potencialmente muito mais perigosos.

Ao longo dos tempos, desastres naturais e outras grandes catástrofes, foram, na verdade, frequentemente atribuídos à ira de um poderoso daitengu. Também se enfureciam ao presenciar o desmatamento desnecessário das matas. Nos séculos XVIII e XIX, os tengu passaram a ser temidos como os vigilantes protetores das florestas. Em 1764, na coleção de fantásticas estórias publicadas no Sanshu Kidan (三州奇談), encontra-se o conto de um homem que, ao coletar folhas em um vale profundo, foi atingido por uma repentina tempestade de granizo. Mais tarde o camponês ficou sabendo que havia adentrado os domínios dos tengu e, qualquer um que tirasse uma única folha daquele lugar certamente poderia encontrar a morte.

No Sōzan Chomon Kishū (想山著聞奇集), escrito em 1849, o autor descreve os costumes dos lenhadores da província de Mino, que usavam uma espécie de bolo de arroz chamado “kuhin-mochi” para aplacar a ira tengu, que caso contrário, perpetrariam todo tipo de maldade. Em outras províncias, um tipo especial de peixe chamado “okoze” também era oferecido aos tengu por lenhadores e caçadores, em troca de um dia de trabalho bem-sucedido.

Contudo, muito mais sábios, também possuem maior autocontenção, e alguns dentre eles são ocasionalmente dispostos a dar ajuda aos seres humanos que consideram dignos. Habilidosos, muitas vezes passam por um indivíduo comum com nomes próprios. Ao decorrer dos séculos, enquanto os ko-tengu continuaram a aterrorizar as pessoas, sempre que podiam, os ‘dai-tengu’ passaram a ser vistos, menos como o inimigo da humanidade, e mais como uma raça de sábios divinos que vivem reclusos nas montanhas.

Eles tornaram-se intimamente ligados com a religião dos ascetas (devotos que buscam afastar-se dos prazeres mundanos, dedicando-se às orações, privações e mortificações) nas montanhas, Shugendō. Shugendō é um culto religioso altamente sincrético, um corpo de práticas ascéticas que se originaram no Período Nara (710 – 794) tendo evoluído durante o século VII a partir de uma amálgama de crenças, filosofias, doutrinas e sistemas rituais extraídos de práticas folclóricas locais e adoração à montanha.

Contam que, a doutrina dos místicos das montanhas cresceu perto dos tengu, buscando sua sabedoria e os adorando como seres divinos. Muitos acreditam que devido a aproximação destes devotos aos tengu, a humanidade finalmente conseguiu ganhar o respeito das poderosas criaturas. Desde os velhos tempos, muitos corajosos se aventuraram em ermos desconhecidos na esperança de ganhar alguma “sabedoria tengu” e, ocasionalmente, um tengu poderia, de fato, ensinar segredos e transmitir seu conhecimento mágico para o mais digno entre os homens. Ao possuir espiritualmente uma pessoa, esta começava demonstrar habilidades que antes não tinha como, por exemplo, escrever com maestria os kanjis ou manusear com destreza uma katana.

Diz-se que, Minamoto no Yoshitsune (1159 – 1189), um dos mais aclamados generais japoneses, aprendeu esgrima, magia e tática de guerra com o reverenciado tengu Sōjōbō ( 僧正坊) – Sōjōbō é um mitológico Daitengu, considerado o deus-rei dos tengu que habita o Monte Kurama. Com longos cabelos e barbas brancas, o mítico rei é dito possuir a força de mil tengus. Sōjōbō (僧正坊) do Monte Kurama e Tarōbō (太郎坊) do Monte Atago estão entre os tengu mais famosos da literatura folclórica japonesa.


O jovem Yoshitsune foi treinado pelo Rei-tengu, tornando-se um excepcional guerreiro.

De acordo com o mito, após a morte do pai de Yoshitsune em uma batalha contra o Clã Taira, o jovem foi treinado em Sōjōgatani, ou vale do Bispo, por Tengu Sama (Lorde Tengu), título como Sōjōbō também é referido, tornando-se um guerreiro altamente qualificado capaz de derrotar seus inimigos. O épico de guerra “Heiji monogatari” (O Conto de Heiji) diz que o treinamento que o jovem Yoshitsune recebeu “foi a razão pela qual ele poderia correr e saltar além dos limites do poder humano”.

O Mito dos poderosos homens-pássaros sobreviveu aos tempos e, ainda hoje, são reverenciados na cultura nipônica. 

Com estórias que sobreviveram ao tempo, a imagem do tengu permaneceu como um dos temas mais populares e queridos do folclore japonês. Por volta do século 19, a natureza bélica e o comportamento vicioso do tengu passaram a ser vistas como características honrosas únicas para esses espíritos-pássaros. Até hoje, muitos santuários promovem festivais em sua homenagem por todo país.

Como criaturas poderosas, seus conhecimentos e habilidades foram popularizados através das artes como o tradicional teatro Kabuki e Noh, e impressões Ukiyo-e, entre outros. Na mídia moderna, o mito pode ser conferido através de extensiva produção que vai desde filmes a séries de anime e mangá.


https://cacadoresdelendas.com.br/japao/tengu-o-guerreiro-gigante-alado-das-montanhas-no-japao/

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